sábado, 5 de julho de 2008

Não É Dor

Quando se olha de dentro da pessoa que se é, dentro de um sítio fechado que por nós se abriu para fechar a pessoa dentro: indiferente é o outro que à porta assoma, idêntico pássaro do frio, deus igual da chuva, que entra para se enxugar, aquecer, estar ruidosamente calado a outra mesa ou ao balcão, indiferente – apenas gente.

A pele toca a vocação de couro, a boca de um cigarro espreita de dentro da caixa de metal, uma gargalhada fraca cai ao chão como um copo, a crise económica nota-se mais na anemia das piadas com que os caixeiros-viajantes entretêm as pré-seduzidas divorciadas do bairro. Quando uma pessoa se olha de dentro e se disfarça de fora por mundo.

Hoje é sexta-feira, ao ar da tarde sucedeu a seda fria da noite, na casa-de-banho do estabelecimento cheira a mijo amestrado de quarentões que vieram tentar a sorte través a batida insuportável da música e o cheiro a tostas mistas e os cinzeiros esbeiçados pelo roçagar dos anéis de imitação, amestrar o mijo é uma arte funâmbula como todas, quando se olha.

Arte sonâmbula, também, como também todas as artes. São quê, onze da noite? Onze e um quarto. Temos tempo. Lá fora, os reclamos das seguradoras azulam a frio o verdescuríssimo que monta do rio, a cujo gume se afia muita pederastia, muito aluguer de senhoras pensionistas, muita rulote de farturas encerrada para sempre, olha o torrão-de-alicante, olha-me de dentro.

Este casaco crucificado no cabide como um cristo têxtil, os guarda-chuvas empalando a figura dos corvos molhados, outra gargalhada do lado das educadoras de infância, mais alta, mais tónica esta, vai funcionando o gin temperado de cerveja, rosas queimam já as bochechas sorvedoras, rebrilham já as próteses sorridentes, se se olha quando.

Um homem tinha livros em casa que eram cadernos. Sem ele querer, os cadernos começaram a escrever-se sozinhos. Ele começou a sair sozinho, nem caneta levava. Entrou aqui dentro, de onde o olho com espúria indiferença. Também vim, sou um amestrador de rios de ouro: quando mijo e quando olho, disfarçando o muito dentro que fora assoma.

Tilintam luzes, caleidoscopam palavras estilhaçadas como azulejos, um casal avindo agora sai porta fora, dois que se desenrascaram um com o outro, nem meia-noite é ainda, sê-lo-á, é indiferente. Nas fontes da cabeça, uma pulsão de rosas talvez tóxicas, talvez rosas: não é dor, é o corpo a batucar seus rios dentro, sua leitura metabólica dos sinais de fumo, fora.

Uma viagem seria a salvação, talvez. Mesmo uma viagem por dentro, mas outra que não esta – nem por este dentro adentro. Ou então outro bar, em outra sexta-feira, longe destas gajas e destes mijões, muito longe da melancolia sacerdotal do barman, rapace rapaz pai de duas filhas feitas entre encontros de motards com concurso de miss t-shirt molhada, que por nós se abriu.

É quê, uma e tal da manhã? Ainda o dentro é uma criança. Pena que a tenhamos deixado envelhecer, à criança tóxica como rosa de fonte da cabeça. Inútil bailarmos pré-congeladas nostalgias dos anos 80, Spandau Ballet, Cure, Roxy Music ou pior ainda. É hora de amansar com whisky irlandês o coelho bravo que sobe à garganta para se tornar frase ou, pior, algum verso do Lennon.

Amanhã compra-se o Expresso em vez de um bilhete para o Sul, cola-se o cu a uma cadeira de plástico, os óculos escuros agarrados à cara como um par de andorinhas mortas, telefonar a uma das filhas a saber se é dia de levá-la a uma pizza ou assim, não recordar senão em frente, antes da noite, sendo sábado, sábado sendo e de dentro olhando a pessoa que, pele, à porta assoma, a mesma que olha de dentro, couro.


Daniel Abrunheiro